Nenhum rio é uma ilha
O Rio da Minha Aldeia é bem mais que um rio e bem maior que a minha aldeia. A Bacia do Paraíba do Sul, rio onde o Paraibuna deságua, já no estado do Rio de Janeiro, é a aldeia de muita gente. Por isso, preservar aqui é preservar lá também.
A Bacia do Paraíba do Sul é como uma grande família. Cada rio que nasce, corre e desemboca nesse sistema é um parente próximo com histórias, características e responsabilidades distintas. O Paraibuna, que desce da Mantiqueira, atravessa Juiz de Fora e encontra o Paraíba do Sul em terras fluminenses, é um desses membros fundamentais. Ao todo, essas águas percorrem 184 municípios nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, afetando a vida de cerca de 14 milhões de pessoas. Cuidar do Paraibuna é cuidar de toda essa gente.
No coração dessa governança está o Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (CEIVAP), uma espécie de “parlamento das águas” onde decisões técnicas, políticas e sociais moldam o futuro da bacia e dos seus afluentes. Entre seus integrantes está o geógrafo Matheus Machado Cremonese, cuja trajetória se entrelaça há mais de duas décadas com a gestão das águas e a construção de espaços participativos que unem poder público, usuários e sociedade civil.
Formado em Geografia e História, Cremonese ajudou a fundar o Programa de Educação Ambiental (PREA), ONG que hoje ocupa assento em conselhos e comitês de recursos hídricos. Desde 2011, representa a entidade nos espaços de decisão da bacia, incluindo o CEIVAP, no qual já ocupou posições de liderança. “É literalmente um parlamento. Cada segmento tem voz e defende seus interesses, mas sempre olhando o conjunto. Por isso, a água que eu tiro a montante precisa chegar com qualidade a quem está a jusante”, explica.
A lógica é de interdependência
Dentro da Bacia do Paraíba do Sul, o CEIVAP funciona como uma “mini COP” regional, um espaço permanente de negociação onde os diferentes atores - três estados, 184 municípios, empresas, instituições públicas, setores produtivos, sociedade civil e órgãos ambientais - discutem desafios comuns e pactuam compromissos coletivos.
Assim como ocorre nas Conferências das Partes (COPs) do clima, há múltiplos interesses em jogo, do abastecimento à indústria, da irrigação à preservação ambiental. O território exige metas conjuntas porque a água não respeita fronteiras geográficas e políticas.
Reunidos em câmaras técnicas, plenárias e processos de votação, os integrantes do CEIVAP buscam transformar conflitos em consenso, definem prioridades, distribuem investimentos e monitoram resultados como uma COP contínua da família das águas.
Gestão da grande família
Criado pela Política Nacional de Recursos Hídricos, o CEIVAP opera com instrumentos essenciais para cuidar da bacia. Entre eles, o destaque é o Plano de Bacias, com horizonte de 15 anos e revisado a cada cinco anos, que descreve a bacia, mapeia problemas e orienta investimentos. Empresas e usuários que captam água ou lançam efluentes pagam pelo uso. Esse recurso financia estudos, obras, saneamento e ações ambientais nos 184 municípios. Embora o CEIVAP não conceda outorgas, embasa decisões com dados de disponibilidade, conflitos e limites de uso. Concentra também um banco de dados que serve para orientar políticas públicas e permite monitorar a saúde dos rios.
O Paraibuna dentro da família.jpg)
O Paraibuna tem funções essenciais na Bacia do Paraíba do Sul. É manancial vital de Juiz de Fora. Cerca de 60% da água consumida na cidade vem dele, represado em Chapéu D’Uvas. Atualmente, o CEIVAP financia estudos sobre o uso e ocupação do entorno, mapeando o que é área pública (desapropriada pela União) e o que é do estado e dos municípios — algo que, até hoje, nem a Secretaria de Patrimônio da União (SPU) tinha claramente delimitado. É um passo decisivo para interromper uma corrida imobiliária às margens do manancial que pode comprometer o futuro de toda a bacia.
No alto da Mantiqueira, o Paraibuna tem qualidade próxima à classe especial. Ao atravessar Juiz de Fora, porém, recebe esgoto não tratado e resíduos urbanos. “É duro admitir, mas hoje o Paraibuna entrega ao Paraíba do Sul muito menos qualidade do que recebe”, diz Cremonese. E esse impacto se espalha pela família inteira. As cidades a jusante que dependem do Paraíba do Sul para abastecimento, agricultura, indústria e ecossistemas estão recebendo a água nessas condições. “Então o cuidado que a gente tem que ter com ele não é só a montante da cidade por conta de Chapéu de Uvas, mas sim porque ele no pensamento de aldeia, num pensamento cíclico e num pensamento de conexão, ele serve pra mim, mas ele vai servir pra outros também”.
SAIBA MAIS
“O rio da minha aldeia” é um projeto jornalístico da Gente de Conteúdo Comunicação em parceria com a Rede Tribuna de Comunicação e apoio da Cesama. Humanizado, o Paraibuna conversa com a cidade, para contar sua história, seus planos para o futuro, as histórias de seus córregos, as obras necessárias para o projeto de despoluição, a revitalização das margens, os causos divertidos, os pedidos de ajuda à população, além de reportagens e entrevistas especiais.
Texto: Carmen Calheiros